Formação de mulheres em elite global expõe lacunas do Brasil em liderança e acesso

Em um cenário de acesso ainda desigual, experiências internacionais de formação e redes globais de influência ganham peso na preparação de mulheres brasileiras para posições de decisão.
Andréa Campos Andréa Campos

Programas internacionais de formação executiva têm se consolidado como espaços estratégicos para acelerar carreiras, ampliar repertórios e preparar lideranças para contextos de alta complexidade. Ao mesmo tempo, evidenciam uma lacuna relevante: o acesso ainda desigual de mulheres brasileiras a esses ambientes.

Embora as mulheres já representem mais de 50% dos formados no ensino superior no Brasil, sua presença em posições de alta liderança ainda é significativamente menor, um contraste que expõe não apenas desafios estruturais, mas também limitações de acesso a experiências formativas de alcance global.

Nesse contexto, iniciativas como as ligadas ao Harvard Negotiation Project, na Harvard Faculty Club e à Universidade Sorbonne revelam diferenças importantes entre o que é oferecido internacionalmente e as oportunidades ainda restritas no Brasil, especialmente no que diz respeito à exposição a ambientes de alta performance intelectual e redes de influência.

Para a executiva Andréa Campos, que também atua como conselheira na formação Theory and Tools of the Harvard Negotiation Project, realizada em Harvard e liderada pela CMI Interser, voltada especialmente para mulheres, essas experiências vão além do conteúdo técnico. Elas desenvolvem pensamento crítico, ampliam a capacidade de atuação em cenários complexos e, sobretudo, conectam profissionais a redes globais que influenciam decisões estratégicas.

“Existe uma intencionalidade clara em preparar mulheres para ocupar espaços de decisão. Não se trata apenas de qualificação, mas de posicionamento estratégico, acesso a redes globais e desenvolvimento de confiança para liderar em ambientes de alta complexidade”, afirma.

No Brasil, apesar dos avanços na formação acadêmica, a trajetória até posições de decisão ainda encontra barreiras relevantes. Entre elas, destacam-se o acesso limitado a programas internacionais, os custos elevados, a baixa exposição a contextos globais e, em muitos casos, a ausência de incentivo estruturado.

Mas há uma dimensão adicional que precisa ganhar protagonismo nessa discussão: a responsabilidade individual sobre a própria trajetória.

Se, por um lado, o apoio institucional é muito importante, por outro, torna-se cada vez mais essencial que as próprias mulheres assumam o planejamento e a condução de suas carreiras. Isso implica intencionalidade, disciplina e investimento contínuo em capacitação, no Brasil e no exterior.

Nesse sentido, a formação deixa de ser episódica e passa a ser estratégica. “Procuro, a cada ciclo, incluir no meu planejamento ao menos uma experiência internacional de aprendizado, mesmo com as minhas limitações de recursos, tempo e idiomas, como forma de ampliar repertório, visão e conexões. Ao mesmo tempo, reconheço o valor do investimento institucional. Tive a oportunidade e o privilégio de participar de uma formação em Portugal com apoio integral da empresa, um investimento relevante, que reflete confiança e compromisso com o desenvolvimento de lideranças”, afirma Andréa.

Ampliar repertório deixa de ser diferencial e passa a ser condição. Expor-se a diferentes contextos, acessar conteúdos de excelência e construir redes qualificadas são movimentos que impactam diretamente a capacidade de decisão e a ocupação de espaços estratégicos no longo prazo.

“O Brasil forma boas profissionais, mas ainda oferece pouco acesso e, muitas vezes, pouca intencionalidade para experiências que conectem essas mulheres a uma elite intelectual global”, destaca.

Outro aspecto relevante é o papel de iniciativas voltadas exclusivamente para mulheres, que criam ambientes seguros para troca, fortalecimento e construção coletiva de soluções. “Quando mulheres aprendem juntas, compartilham desafios e constroem caminhos, o impacto é exponencial. Isso transforma não apenas trajetórias individuais, mas ecossistemas inteiros”, afirma.

Esse debate ganha ainda mais relevância em um momento em que diversidade e inclusão deixaram de ser apenas pautas sociais e passaram a integrar a agenda estratégica de empresas e instituições. A formação de lideranças femininas com visão global torna-se, portanto, um diferencial competitivo e não apenas um ideal.

Investir em si mesma, na própria formação e na construção de repertório, não é um caminho simples. Exige escolhas, disciplina e, muitas vezes, renúncias. Mas é um investimento que ninguém pode retirar. Conhecimento e capital intelectual são ativos permanentes, que geram segurança, ampliam possibilidades e sustentam novos ciclos de crescimento.

E há, nesse movimento, uma dimensão que vai além do individual. Quanto mais mulheres se fortalecem, mais ampliam sua capacidade de influência, de contribuição e de impacto. Crescer, nesse contexto, não é apenas avançar, é também reverberar, compartilhar e contribuir para uma sociedade mais preparada, mais justa e mais consciente.

No fim, investir em si mesma é mais do que construir carreira. É expandir possibilidades, abrir caminhos e transformar o que antes parecia inalcançável em algo concreto, compartilhável e capaz de impactar muitas outras trajetórias.

Sobre Andréa Campos

Atualmente, Diretora de Processos, Qualidade e Experiência do Cliente em uma das líderes no mercado brasileiro de telecomunicações, com trajetória executiva em varejo, tecnologia, consultoria e telecomunicações.

Possui formação multidisciplinar e vivência sólida em Projetos, Marketing, Recursos Humanos, Gestão da Qualidade Total, Sistemas de Gestão, Neurociências, Processos, Negociação, Experiência do Cliente e Inteligência Artificial, com passagens por instituições de referência como FAAP, FGV, PUC, FIA, Harvard Faculty Club / CMI e Universidade Sorbonne.

É Conselheira da formação Theory and Tools of Negotiation, do Harvard Negotiation Program, iniciativa exclusiva para mulheres de países de língua portuguesa, e Conselheira do Law & Liberty Society Brasil. É coautora do livro “Mulheres em Telecom” e Embaixadora do Hub Amor pela Vida, iniciativa do IDELB, e diplomata civil humanitária pelo Jethro International.

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